Thursday, April 20, 2006

Terceira carta (sobre um velho postal de Florença)

"Nessun maggior dolore che ricordarsi del tempo felice ne la miseria"

Segunda carta

Minha linda senhora,
acredito que não exista uma primeira vez. Só Deus, talvez, no Princípio dos Princípios, terá conseguido algo de original. Do caos para o não-caos. Depois já não, Senhora minha. A partir desse instante único, perdido nos cantos dos dias, nada mais foi novo.
Assim esta dor que me fere, porque partiste. É uma dor antiga que balança com desprezo entre o ódio e a paixão, sem qualquer respeito por aquilo de que eu estava convencido de ser. É uma dor que muitos sentiram antes de mim e que muitos sentirão depois. Surge quando olho esta fotografia do teu rosto feliz, vindo de memórias azuis que já não me pertencem. Surge quando oiço os sons a que te abandonavas, La Traviata vezes sem conta.Gosto fácil mas seguro, diria.
Mas a dor: a lembrança de como sussurradas frivolidades que só eu sei - que só tu sabias - como me são absolutamente essenciais. Noites passadas em concursos de trivialidades, entre risos, entre noticiários televisivos, entre a vida. E conseguiste ir, depois de tudo isto.
Esta dor antiga é agora o meu legado.
Teu,
H.

Monday, April 17, 2006

Primeira carta

Minha querida,
Há um dia que partiste.
O que ficou por dizer:tudo. O que ficou para dizer: nada.
Já sei que é tarde, meu amor, que a noite desce sobre o que poderia ter sido. O que é que nos redime desta doença de nos amarmos, o que é que nos salva desta tragédia de querermos quem perdemos ? É a imortalidade a que temos direito, meu suave amor, e que fica tristemente nestas palavras que sei que não irás ler. Nem eu as escrevi, nem eu as escrevi.
É tarde, meu amor.