Minha linda senhora,
acredito que não exista uma primeira vez. Só Deus, talvez, no Princípio dos Princípios, terá conseguido algo de original. Do caos para o não-caos. Depois já não, Senhora minha. A partir desse instante único, perdido nos cantos dos dias, nada mais foi novo.
Assim esta dor que me fere, porque partiste. É uma dor antiga que balança com desprezo entre o ódio e a paixão, sem qualquer respeito por aquilo de que eu estava convencido de ser. É uma dor que muitos sentiram antes de mim e que muitos sentirão depois. Surge quando olho esta fotografia do teu rosto feliz, vindo de memórias azuis que já não me pertencem. Surge quando oiço os sons a que te abandonavas,
La Traviata vezes sem conta.Gosto fácil mas seguro, diria.
Mas a dor: a lembrança de como sussurradas frivolidades que só eu sei - que só tu sabias - como me são absolutamente essenciais. Noites passadas em concursos de trivialidades, entre risos, entre noticiários televisivos, entre a vida. E conseguiste ir, depois de tudo isto.
Esta dor antiga é agora o meu legado.
Teu,
H.